segunda-feira, 15 de março de 2010

Os trens chineses são melhores que os americanos, e isso é bom

O título do texto não é atrativo, mas o assunto nos ajuda bastante a entender as diferenças políticas e econômicas entre regimes de princípios totalmente diferentes. Um prato cheio para os geógrafos sérios.


Enquanto os EUA estão trabalhando a passos de tartaruga para dar rumo ao seu sistema ferroviário de alta velocidade, a China está avançando à velocidade máxima com o seu próprio: Segundo o New York Times, 42 linhas de alta velocidade foram inauguradas recentemente na China ou estão prontas para funcionar dentro dos próximos dois anos. Assim que os analistas fizeram comparações entre os esforços ferroviários dos dois países, pareceu que os EUA estão ficando para trás, com um programa que é mais lento, mais difuso e que tem mais etapas a se galgar. Mas essas deficiências podem realmente refletir o recurso mais valioso dos Estados Unidos: um sistema político e econômico que se desenvolve melhor e é mais sensível às necessidades do seu povo.

Onde isso vai parar?

Um dos grandes problemas enfrentados pelo programa ferroviário dos Estados Unidos é a questão da propriedade privada. A maioria dos trens da Amtrak compartilha trilhos com trens de carga, o que limita a velocidade de transporte. Para desenvolver um completo sistema ferroviário para os trens-bala nos EUA será necessário construir linhas exclusivas. Isso significa que as empresas e as parcerias público-privadas que estão construindo as linhas ferroviárias terão que comprar as propriedades necessárias a preços de mercado ou pedir a expropriação ; e pagar o valor que o governo decidir é pagar o valor justo de mercado. Seja qual for o método, é certo que haverá proprietários furiosos, infindas reuniões e muito dinheiro do contribuinte indo para as aquisições de propriedades.

Na China autocrática, o planejamento centralizado de governo encurta o caminho dos negócios sujos da democracia. Quando os residentes de Tsoi Yuen, uma aldeia que fica no futuro caminho da ferrovia do Cantão, recentemente se encontraram com os planejadores para uma "consulta", ofereceram a eles a escolha: aceitar dinheiro para sair ou sair sem dinheiro algum. De qualquer maneira, o trem passaria por sua cidade.

Quem vai construí-la?

Tendo obtido o controle das terras necessárias, o próximo passo será encontrar a mão-de-obra para a construção das linhas. A recessão nas economias ocidentais colocou milhões de trabalhadores no mercado, permitindo a linha Beijing-Shangai, de 32 bilhões de dólares, empregar o impressionante número de 130.000 trabalhadores. Nos Estados Unidos, o custo deste tipo de trabalho seria atroz, mas a moeda controlada artificialmente da China mantém o salário dos trabalhadores em cerca de 176 dólares por mês, ou pouco mais de 1 dólar por hora. Em comparação, o salário médio de um trabalhador novato da construção civil nos Estados Unidos é de 13,71 dólares, o que se traduz em mais de US$ 2.300 por mês. Em outras palavras, a China pode contratar mais de 13 trabalhadores pelo mesmo preço que os EUA gastam com um – ou mais de 130.000 para o custo de 10.000 nos EUA.

O trabalho por preços módicos foi fundamental para a construção da primeira linha férrea transcontinental dos Estados Unidos. O trecho que vai de Sacramento (Califórnia) a Ogden (Utah) foi construído com a ajuda de cerca de 10.000 operários chineses que trabalhavam por cerca de US$ 25 a US$ 30 por mês, até 30% menos do que os salários dos empregados nativos qualificados. A outra parte, que liga Ogden a Council Bluffs (Iowa) foi construída por imigrantes europeus, soldados recentemente licenciados da Guerra Civil e, na área perto de Salt Lake, trabalhadores Mórmons ansiosos.

Este vasto conjunto de trabalho não qualificado, combinado com uma falta de preocupação com a segurança do trabalhador, permitiu que os EUA construíssem uma ferrovia transcontinental em apenas seis anos. Mas as normas de segurança no local de trabalho do século XIX – e de grande parte da China contemporânea – pasmariam os americanos contemporâneos. Comparada com a anterior, a força de trabalho norte-americana de hoje é infinitamente mais educada e polivalente do que os seus homólogos do século XIX, e nossas técnicas modernas de construção são as máquinas e a educação intensa, o que maximiza o ônus desta força de trabalho limitada e cara. Além de um esforço de trabalho como o da China ser impossível nos E.U.A., também seria amplamente desnecessário.

E quem usará o trem?

Outra diferença fundamental entre os empreendimentos das frerrovias de alta velocidade na China e nãos EUA recai sobre os potenciais consumidores dos serviços. Enquanto o trem é a forma dominante de transporte em grande parte da China, nos E.U.A. ele tem que competir com os aviões e carros. Por ser desprovidas da velocidade dos aviões e da conveniência de automóveis, as linhas de alta velocidade terão que oferecer a passagem a preços bem amenos. Contudo, há pouco tempo isto causou conflito entre trens e ônibus, estes com sobrecarga muito menor.

Na China, uma infra-estrutura de transportes fragmentada significa que lá há poucas opções de locomoção em várias áreas; conseqüentemente, os trens podem praticamente cobrar o quanto quiserem. A tarifa básica é altamente subsidiada para uma viagem de 664 milhas, de Guangzhou a Wuhan, é de 20,50 dólares; usando a conversão do salário de 13.5 para 1, isto se traduz, em comparação ao preço americano, em cerca de 276 dólares por passagem só de ida. Em comparação, a passagem para o trem de alta velocidade é 72 dólares, o que equivale a quase 1.000 dólares americanos usando a mesma comparação. Este preço põe o sistema ferroviário de alta velocidade chinês longe do poder aquisitivo do seu trabalhador médio.

Mas a rentabilidade do sistema ferroviário da China também funciona de modo diferente neste projeto. As ferrovias de alta velocidade do país estão funcionando como um grande projeto keynesiano, espremendo a economia chinesa ao despejar bilhões de dólares no mercado de trabalho. Neste contexto, mesmo que as novas linhas ferroviárias da China nunca vinguem, elas serão bem sucedidas apenas em virtude da sua capacidade para empregar centenas de milhares de trabalhadores. Além disso, ela também abrirá pontos comerciais em áreas pobres do país, oferecendo benefícios contínuos ao passo que as zonas menos desenvolvidas se tornam locais potenciais para o desenvolvimento industrial.

Em um contexto mais amplo, é importante também notar que o sistema político e econômico da China dá a seu sistema ferroviário uma margem de manobra impraticável nos Estados Unidos. Como empresa estatal, a China Railways não tem necessidade de impressionar os acionistas com lucro, e os grandes planejadores do país não teem que dar satisfação aos eleitores.

Por causa do curso lento em que os projetos ferroviários de alta velocidade são executados, os críticos inevitavelmente vão apontar os vários atrasos e deficiências mencionadas como provas de que os EUA está bordejando, que está sendo superado pela China, ou que falta vontade política suficiente. No entanto, estas deficiências refletem um sistema político que é mais sensível ao seu povo, mais preocupado com os direitos individuais e mais desenvolvido que o da China. Em outras palavras, embora o sistema político e econômico dos EUA possa ser menos eficiente do que chinês, é mais maduro – e mais preferível.

Bruce Watson

Articulista

Bruce Watson é articulista do DailyFinance, com foco nos efeitos políticos e culturais dos eventos econômicos. Colabora com o Military Lessons of the Persian Gulf War, o A Chronology of the Cold War at Sea, o Journal of American Philosophy, o American Journal of Philosophy, o A Café in Space, e, em breve, com o Butter, Gooseberries, and Latkes! Ele também trabalhou como assistente de investigação na Câmara Britânica dos Comuns e no Instituto Naval dos Estados Unidos.

Fonte: http://www.dailyfinance.com/story/chinas-trains-are-better-than-americas-and-thats-a-good-t/19366122/?icid=main%7Cmain%7Cdl4%7Clink3%7Chttp%3A%2F%2Fwww.dailyfinance.com%2Fstory%2Fchinas-trains-are-better-than-americas-and-thats-a-good-t%2F19366122%2F

Tradução: Rafael Resende Stival, do blog Salmo 12


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Método Paulo Freire ou Método Laubach?

Aí segue mais um texto (copiado) que nos dá a medida da impostura do pop-star das licenciaturas brasileiras. O sucesso do "pensador" se deve a um plágio de um dos cristãos mais dedicados e geniais da história recente, que levou cativo todo o seu pensamento à obediência do mandamento de pregar as boas novas.

O texto foi publicado no MSM em 2004, mas ainda não está no seu arquivo.


Rafael.

Segundo historiador, Frank Laubach pode ser o Hegel de Paulo Freire — o "criador" da Pedagogia do Oprimido pode ter plagiado o educador norte-americano, virando-o de ponta-cabeça


DAVID GUEIROS VIEIRA


O Método Laubach de alfabetização de adultos foi criado pelo missionário protestante norte-americano Frank Charles Laubach (1884-1970). Desenvolvido por Laubach nas Filipinas, em 1915, subseqüentemente foi utilizado com grande sucesso em toda a Ásia e em várias partes da América Latina, durante quase todo o século XX.

Em 1915, Frank Laubach fora enviado por uma missão religiosa à ilha de Mindanao, nas Filipinas, então sob o domínio norte-americano, desde o final da guerra EUA/Espanha. A dominação espanhola deixara à população filipina uma herança de analfabetismo total, bem como de ódio aos estrangeiros.

A população moura filipina era analfabeta, exceto os sacerdotes islamitas, que sabiam ler árabe e podiam ler o Alcorão. A língua maranao (falada pelos mouros) nunca fora escrita. Laubach enfrentava, nessa sua missão, um problema duplo: como criar uma língua escrita, e como ensinar essa escrita aos filipinos, para que esses pudessem ler a Bíblia. A existência de 17 dialetos distintos, naquele arquipélago, dificultava ainda mais a tarefa em meta.

Com o auxílio de um educador filipino, Donato Gália, Laubach adaptou o alfabeto inglês ao dialeto mouro. Em seguida adaptou um antigo método de ensino norte-americano, de reconhecimento das palavras escritas por meio de retratos de objetos familiares do dia-a-dia da vida do aluno, para ensinar a leitura da nova língua escrita. A letra inicial do nome do objeto recebia uma ênfase especial, de modo que aluno passava a reconhecê-la em outras situações, passando então a juntar as letras e a formar palavras.

Utilizando essa metodologia, Laubach trabalhou por 30 anos nas Filipinas e em todo o sul da Ásia. Conseguiu alfabetizar 60% da população filipina, utilizando essa mesma metodologia. Nas Filipinas, e em toda a Ásia, um grupo de educadores, comandado pelo próprio Laubach, criou grafias para 225 línguas, até então não escritas. A leitura dessas línguas era lecionada pelo método de aprendizagem acima descrito. Nesse período de tempo, esse mesmo trabalho foi levado do sul da Ásia para a China, Egito, Síria, Turquia, África e até mesmo União Soviética. Maiores detalhes da vida e trabalho de Laubach podem ser lidos na Internet, no site Frank Laubach.

Na América Latina, o método Laubach foi primeiro introduzido no período da 2ª Guerra Mundial, quando o criador do mesmo se viu proibido de retornar à Ásia, por causa da guerra no Pacífico. No Brasil, este foi introduzido pelo próprio Laubach, em 1943, a pedido do governo brasileiro. Naquele ano, esse educador veio ao Brasil a fim de explicar sua metodologia, como já fizera em vários outros países latino-americanos.

"As cartilhas de Laubach foram copiadas pelos marxistas em Pernambuco, dando ênfase à luta de classes. O autor dessas outras cartilhas era Paulo Freire, que emprestou seu nome à "nova metodologia" como se a ela fosse de sua autoria"


Lembro-me bem dessa visita, pois, ainda que fosse muito jovem, cursando o terceiro ano Ginasial, todos nós estudantes sabíamos que o analfabetismo no Brasil ainda beirava a casa dos 76% - o que muito nos envergonhava - e que este era o maior empecilho ao desenvolvimento do país.

A visita de Laubach a Pernambuco causou grande repercussão nos meios estudantis. Ele ministrou inúmeras palestras nas escolas e faculdades — não havia ainda uma universidade em Pernambuco — e conduziu debates no Teatro Santa Isabel. Refiro-me apenas a Pernambuco e ao Recife, pois meus conhecimentos dos eventos naquela época não iam muito além do local onde residia.

Houve também farta distribuição de cartilhas do Método Laubach, em espanhol, pois a versão portuguesa ainda não estava pronta. Nessa época, a revista Seleções do Readers Digest publicou um artigo sobre Laubach e seu método — muito lido e comentado por todos os brasileiros de então, que, em virtude da guerra, tinham aquela revista como único contato literário com o mundo exterior.

Naquele ano, de 1943, o Sr. Paulo Freire já era diretor do Sesi, de Pernambuco — assim ele afirma em sua autobiografia — encarregado dos programas de educação daquela entidade. No entanto, nessa mesma autobiografia, ele jamais confessa ter tomado conhecimento da visita do educador Laubach a Pernambuco. Ora, ignorar tal visita seria uma impossibilidade, considerando-se o tratamento VIP que fora dado àquele educador norte-americano, pelas autoridades brasileiras, bem como pela imprensa e pelo rádio, não havendo ainda televisão. Concomitante e subitamente, começaram a aparecer em Pernambuco cartilhas semelhantes às de Laubach, porém com teor filosófico totalmente diferente. As de Laubach, de cunho cristão, davam ênfase à cidadania, à paz social, à ética pessoal, ao cristianismo e à existência de Deus. As novas cartilhas, utilizando idêntica metodologia, davam ênfase à luta de classes, à propaganda da teoria marxista, ao ateísmo e a conscientização das massas à sua "condição de oprimidas". O autor dessas outras cartilhas era o genial Sr. Paulo Freire, diretor do Sesi, que emprestou seu nome à essa "nova metodologia" — da utilização de retratos e palavras na alfabetização de adultos — como se a mesma fosse da sua autoria.

Tais cartilhas foram de imediato adotadas pelo movimento estudantil marxista, para a promulgação da revolução entre as massas analfabetas. A artimanha do Sr. Paulo Freire "pegou", e esse método é hoje chamado Método Paulo Freire, tendo o mesmo sido apadrinhado por toda a esquerda, nacional e internacional, inclusive pela ONU.

No entanto, o método Laubach — o autêntico — fora de início utilizado com grande sucesso em Pernambuco, na alfabetização de 30.000 pessoas da favela chamada "Brasília Teimosa", bem como em outras favelas do Recife, em um programa educacional conduzido pelo Colégio Presbiteriano Agnes Erskine, daquela cidade. Os professores eram todos voluntários. Essa foi a famosa Cruzada ABC, que empolgou muita gente, não apenas nas favelas, mas também na cidade do Recife, e em todo o Estado. Esse esforço educacional é descrito em seus menores detalhes por Jules Spach, no seu recente livro, intitulado, Todos os Caminhos Conduzem ao Lar (2000).

"A 'bolsa-escola' de Cristovam Buarque não é novidade. Foi adotada há décadas por discípulos de Laubach e criticada pela esquerda na época. A bolsa-escola já era defendida por Antônio Almeida, um educador do século XIX"


O Método Laubach foi também introduzido em Cuba, em 1960, em uma escola normal em Bágamos. Essa escola pretendia preparar professores para a alfabetização de adultos. No entanto, logo que Fidel Castro assumiu o controle total do poder em Cuba, naquele mesmo ano, todas as escolas foram nacionalizadas, inclusive a escola normal de Bágamos. Seus professores foram acusados de "subversão", e tiveram de fugir, indo refugiar-se em Costa Rica, onde continuaram seu trabalho, na propagação do Método Laubach, criando então um programa de alfabetização de adultos, chamado Alfalit.

A organização Alfalit foi introduzida no Brasil, e reconhecida pelo governo brasileiro como programa válido de alfabetização de adultos. Encontra-se hoje na maioria dos Estados: Santa Catarina (1994), Alagoas, Ceará, Distrito Federal, Goiás, Sergipe, São Paulo, Paraná, Paraíba e Rondônia (1997); Maranhão, Pará, Piauí e Roraima (1998); Pernambuco e Bahia (1999).

A oposição ao Método Laubach ocorreu desde a introdução do mesmo, em Pernambuco, no final da década de 1950. Houve tremenda oposição da esquerda ao mencionado programa da Cruzada ABC, em Pernambuco, especialmente porque o mesmo não conduzia à luta de classes, como ocorria nas cartilhas plagiadas do Sr. Paulo Freire. Mais ainda, dizia-se que o programa ABC estava "cooptando" o povo, comprando seu apoio com comida, e que era apenas mais um programa "imperialista", que tinha em meta unicamente "dominar o povo brasileiro".

Como a fome era muito grande na Brasília Teimosa, os dirigentes da Cruzada ABC, como maneira de atrair um maior número de alunos para o mesmo, se propuseram criar uma espécie de "bolsa-escola" de mantimentos. Era uma cesta básica, doada a todos aqueles que se mantivessem na escola, sem nenhuma falta durante todo o mês. Essa bolsa-escola tornou-se famosa no Recife, e muitos tentavam se candidatar a ela, sem serem analfabetos ou mesmo pertencentes à comunidade da Brasília Teimosa. Bolsa-escola fora algo proposto desde os dias do Império, conforme pode-se conferir no livro de um educador do século XIX, Antônio Almeida, intitulado O Ensino Público, reeditado em 2003 pelo Senado Federal, com uma introdução escrita por este Autor.

No entanto, a idéia da bolsa-escola foi ressuscitada pelo senhor Cristovam Buarque, quando governador de Brasília. Este senhor, que é pernambucano, fora estudante no Recife nos dias da Cruzada ABC, tão atacada pelos seus correligionários de esquerda. Para a esquerda recifense, doar bolsa-escola de mantimentos era equivalente a "cooptar" o povo. Em Brasília, como "idéia genial do Sr. Cristovam Buarque", esta é hoje abençoada pela Unesco, espalhada por todo o mundo e não deixa de ser o conceito por trás do programa Fome Zero, do ilustre Presidente Lula.

O sucesso da campanha ABC — que incluía o Método Laubach e a bolsa-escola — foi extraordinário, sendo mais tarde encampado pelo governo militar, sob o nome de Mobral. Sua filosofia, no entanto, foi modificada pelos militares: os professores eram pagos e não mais voluntários, e a bolsa-escola de alimentos não mais adotada. Este novo programa, por razões óbvias, não foi tão bem-sucedido quanto a antiga Cruzada ABC, que utilizava o Método Laubach.

A maior acusação à Cruzada ABC, que se ouvia da parte da esquerda pernambucana, era que o Método Laubach era "amigo da ignorância" — ou seja, não estava ligado à teoria marxista, falhavam em esclarecer seus detratores — e que conduzia a "um analfabetismo maior", ou seja, ignorava a promoção da luta de classes, e defendia a harmonia social. Recentemente, foi-me relatado que o auxílio doado pelo MEC a pelo menos um programa de alfabetização no Rio de Janeiro — que utiliza o Método Laubach, em vez do chamado "Método Paulo Freire" — foi cortado, sob a mesma alegação: que o Método Laubach estaria "produzindo o analfabetismo" no Rio de Janeiro. Em face da recusa dos diretores do programa carioca, de modificarem o método utilizado, o auxílio financeiro do MEC foi simplesmente cortado.

Não há dúvida que a luta contra o analfabetismo, em todo o mundo, encontrou seu instrumento mais efetivo no Método Laubach. Ainda que esse método hoje tenha sido encampado sob o nome do Sr. Paulo Freire. Os que assim procederam não apenas mudaram o seu nome, mas também o desvirtuaram, modificando inclusive sua orientação filosófica. Concluindo: o método de alfabetização de adultos, criado por Frank Laubach, em 1915, passou a ser chamado de "Método Paulo Freire", em terras tupiniquins. De tal maneira foi bem-sucedido esse embuste, que hoje será quase que impossível desfazê-lo.

David Gueiros Vieira é historiador. Artigo publicado originalmente em Mídia Sem Máscara, em 9 março de 2004.

Fonte: http://paraibarama.blogspot.com/2008/12/mtodo-paulo-freire-ou-mtodo-laubach.html

BIBLIOGRAFIA

AYRES, Antônio Tadeu. Como tornar o ensino eficaz. Casa Publicadora das Assembléias de Deus, Rio de Janeiro, 1994.

BRINER, Bob. Os métodos de administração de Jesus. Ed. Mundo Cristão, S.P., 1997.

CAMPOLO, Anthony. Você pode fazer a diferença. Ed. Mundo Cristão, SP, 1985.

GONZALES, Justo e COOK, Eulália. Hombres y Ángeles. Ed. Alfalit, Miami, 1999.

GONZALES, Justo. História de un milagro. Ed. Caribe, Miami (s.d.).

GONZALES, Luiza Garcia de. Manual para preparação de alfabetizadores voluntários. 3ª ed., Alfalit Brasil, Rio de Janeiro, 1994.

GREGORY, John Milton. As sete leis do ensino. 7ª ed., Rio de Janeiro, JUERP, 1994.

HENDRICKS, Howard. Ensinando para transformar vidas. Ed. Betânia, Belo Horizonte, 1999.

LAUBACH, Frank C.. Os milhões silenciosos falam. s. l., s.e., s.d.

MALDONADO, Maria Cereza. História da vida inteira. Ed. Vozes, 4ª ed., S.P., 1998.

SMITH, Josie de. Luiza. Ed. la Estrella, Alajuela, Costa Rica, s.d.

SPACH, Jules, Todos os Caminhos Conduzem ao Lar, Recife, PE, 2000.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

O Estado da Nação: Eu Temo

Este texto é mais um pedido de tradução feito pelos editores do Mídia Sem Máscara. É escrito por um norte-americano especialista em leis. O autor descreve a alarmante situação em que está o país que é bastião da democracia e dos princípios orientadores e frutos deste regime. Parece que o tema não se encaixa nos interesses do blog, mas leiam e descubram.

Postado em 27 de janeiro de 2010

Por John W. Whitehead

Presidente do o Instituto RutherFord

"Ao olhar para a América, hoje, eu não tenho medo de dizer que estou com medo." – Bertram Gross, Friendly Fas­cism: The New Face of Power in America.

Nos Estados Unidos, avanços trágicos vêm de muito tempo, em parte acelerados por "we, the people­­­[1]" – cidadãos que estão dormindo ao volante por muito tempo. E enquanto ainda existe algo que nos possa acordar, ainda assim não conseguimos ouvir o alerta.

Apenas considere o estado da nossa nação:

Estamos encerrados naquilo que alguns estão chamando de campo de concentração eletrônica. O governo continua a acumular dados de mais e mais norte-americanos. Em todos os lugares que vamos, somos vistos: nos bancos, no supermercado, no shopping, atravessando a rua. Esta perda de privacidade é sintomática da crescente fiscalização levada a efeito nos americanos comuns. Essa vigilância gradualmente envenena a alma de uma nação, pois, de um estado de inocência presumida até que se prove o contrário, fomos transformados para outro em que todos são suspeitos e presumidamente culpados. Assim, a pergunta que deve ser feita é: pode a liberdade nos Estados Unidos florescer em uma época em que os movimentos físicos, compras individuais, conversas e reuniões de todos os cidadãos estão sob constante vigilância por companhias privadas e agências governamentais?

Estamos nos transformando em um estado policial. Tentáculos governamentais agora invadem praticamente todos os aspectos das nossas vidas, com os agentes do governo ouvindo as nossas chamadas telefônicas e bisbilhotando nossos e-mails. A tecnologia, que se desenvolveu em um ritmo rápido, oferece àqueles que estão no poder as ferramentas mais invasivas e impressionantes que já existiram. Os centros de fusão – agências de coleta de dados espalhadas pelo país, amparadas pela National Secu­rity Agency[2] – monitoram constantemente as nossas comunicações, tudo desde a nossa atividade na Internet a pesquisas na web para mensagens de texto, telefonemas e e-mails. Estes dados alimentam agências governamentais, que estão agora interligadas – a CIA ao FBI e o FBI à polícia local – uma relação que vai fazer o processo de imposição da lei marcial algo bem mais fácil. Poderíamos muito bem pensar que estaríamos a salvo de um ataque terrorista ao ver as forças armadas nas ruas – e o povo americano certamente não ofereceria muita resistência. De acordo com um estudo recente, uma percentagem cada vez maior de americanos está disposta a sacrificar suas liberdades civis para se sentir mais segura, na seqüência do mal sucedido ataque à bomba “da virilha[3]”, no dia de Natal.

Nós somos flagelados por uma economia cambaleante e um déficit financeiro monstruoso que ameaça nos levar à falência. Nossa dívida nacional é de mais de U$ 12 trilhões (que se traduz em mais de U$ 110 mil por contribuinte), e deverá quase dobrar para US $ 20 trilhões em 2015. A taxa de desemprego está superior a 10% e crescendo, com mais de 15 milhões de americanos sem trabalho e outros muitos obrigados a subsistir com empregos de baixa remuneração ou de tempo parcial. O número de famílias norte americanas que estão na iminência de perder suas casas subiu para quase 15% apenas no primeiro semestre do ano passado. O número de crianças vivendo na pobreza está a aumentar (18% em 2007). Como a história ilustra, regimes autoritários assumem mais e mais poder em tempos de desordem financeira.

Nossos representantes na Casa Branca e no Congresso têm pouca semelhança com aqueles que foram eleitos para representar. Muitos dos nossos políticos vivem como reis. Choferados em suas limusines, voando em jatos particulares e comendo refeições gourmet – tudo pago pelo contribuinte americano –, eles estão muito distantes daqueles que representam. Além do mais, eles continuam a gastar o dinheiro que não temos em imundos pacotes de estímulos enquanto alimentam um enorme déficit e deixam que os contribuintes americanos paguem a conta. E enquanto os nossos representantes devem estar num show de disputas partidárias, a elite de Washington - isto é, o presidente e o Congresso - avança com tudo o que deseja, dando pouca atenção à vontade do povo.

Estamos envolvidos em guerras globais contra inimigos que parecem atacar do nada. Nossas forças armadas são levadas ao seu limite, pois estão espalhadas ao redor do globo e sob fogo constante. A quantidade de dinheiro gasto com as guerras no Afeganistão e no Iraque está próxima de U$ 1 trilhão e é estimado que alcance por volta de 3 trilhões de dólares antes que tudo termine. Isso não leva em conta os países devastados que ocupamos, os milhares de civis inocentes mortos (incluindo mulheres e crianças) ou os milhares de soldados americanos que foram mortos ou feridos gravemente ou que estão cometendo suicídio a uma taxa alarmante. Nem leva em conta as famílias dos 1,8 milhões de americanos que serviram ou estão servindo em missões no Iraque e no Afeganistão.

O lugar dos EUA no mundo também está passando por uma mudança drástica, com a China programada para emergir como a maior economia da próxima década. Dada a dimensão do quanto estamos endividados para com a China, a sua influência sobre a forma como o nosso governo realiza seus negócios, bem como sobre a forma como ele lida com os seus cidadãos, não pode ser desconsiderada. Em julho de 2009, a China se apropriou de 800,5 bilhões de dólares da nossa dívida – que é 45% do total da nossa dívida (estrangeira) – tornando-a a maior detentora estrangeira da dívida externa norte-americana. Não se admira, então, que a administração Obama, prostrou-se ante a China, hesitando desafiá-los abertamente sobre questões cruciais como os direitos humanos. O mais recente exemplo disso pode ser visto na relutância inicial da administração de Obama em enfrentar o governo chinês quando dos seus ataques cibernéticos relatados no Google e em outras empresas de tecnologia americanas.

Por haver dissolução das fronteiras nacionais em face da ampliação da globalização, aumenta a probabilidade de que a nossa Constituição, que é a lei suprema da América, seja subvertida em favor de leis internacionais. Isto significa que a nossa Constituição estará sob ataque crescente.

A mídia corporativa, cada vez mais na qualidade de porta-voz da propaganda governamental, já não faz sua função principal de cães de guarda, protegendo-nos contra as invasões aos nossos direitos. Em vez disso, a maior parte da grande mídia só se dedica às notícias idiotas e sobre celebridades, o que é um mau presságio para o nosso país. Não importa se você está falando sobre as notícias dos tablóides, sobre as notícias de entretenimento, ou sobre telejornais legítimos, nem poucas diferenças entre eles há mais. Infelizmente, a maioria dos americanos se ateve à idéia de que tudo o que a mídia nos relata é importante e relevante. Nesse processo, os americanos perderam grande parte da capacidade de fazer perguntas e pensar analiticamente. Com efeito, a maioria dos cidadãos tem pouco ou nenhum conhecimento sobre os seus direitos ou mesmo de como o seu governo trabalha. Por exemplo, uma pesquisa nacional constatou que menos de um por cento dos adultos poderia citar as cinco liberdades protegidas pela Primeira Emenda Constitucional.

Por fim, eu jamais vi um país mais espiritualmente abatido do que os Estados Unidos. Perdemos o nosso compasso moral. Um número crescente de nossos jovens já não vê sentido ou propósito na vida. E nós já perdemos o senso de certo e errado ou de uma maneira de responsabilizar o governo. Esquecemos que a premissa essencial do regime governamental americano, conforme estabelecido na Declaração de Independência, é que se o governo não prestar contas ao povo, então ele deve certamente ser responsável perante o “Criador.”

Mas e se o governo não é responsável perante o povo nem perante o Criador?

Como escreve Thomas Jefferson na Declaração, é então direito do "povo de alterá-lo ou aboli-lo" e formar um novo governo.

Advogado constitucional e autor, John W. Whitehead é fundador e presidente do Instituto Rutherford. Ele pode ser contatado pelo johnw@rutherford.org. As informações sobre o instituto estão disponíveis no www.rutherford.org.



[1] “Nós, o povo...” são as primeiras palavras da constituição americana.

[2] Agência Nacional de Segurança.

[3] Referência ao atentado frustrado ao vôo 253, no natal de 2009.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Reconhecendo o engano

Estes dois últimos artigos são muito relevantes. Talvez não para quem não tenha a menor idéia do trabalho que a KGB sempre fez no Brasil e no resto das Américas. A boa imagem do comunismo e de todas as formas de destruição da cultura ocidental presente nas porcas universidades públicas brasileiras é fruto do trabalho destes gênios do mau. Para se ter uma idéia, o mito que o golpe de 64 foi fruto de uma ação estratégica dos EUA é um desses frutos. Isso ocorreu porque o agente Ladislav Bittman coordenou a distribuição documentos falsificados que "provaram" a tal intervenção.

Para saber mais sobre o caso de 64, clique aqui; e sobre a KGB, clique aqui.



Voz da Rússia, parte 2

por J. R. Nyquist

Conheça Victor Kalashnikov: ex-agente da KGB, estudioso, analista e escritor. Ele é casado com a historiadora e jornalista Marina Kalashnikova, o tema da coluna da semana passada. Antes do colapso da União Soviética Victor trabalhou para a KGB, em Viena. Após a bizarra abdicação de Gorbachev, em dezembro de 1991, Victor viu-se atraído para a administração presidencial de Boris Yeltsin, sob ordens do General Yevgeny Primakov, da KGB. Lá ele se tornou um diretor de pesquisas do Centro de Políticas Públicas da Rússia. "Então minha atenção voltou 180 graus da Europa para a Rússia", explicou Victor. "Eu estava bastante entusiasmado para explorar o que estava acontecendo na Rússia. As pessoas do Kremlin se depararam com várias surpresas e descobertas quanto ao que a Rússia era realmente."

E o que é a Rússia?

Com a ajuda do assessor presidencial, Sergei Stankevich, Victor conseguiu aposentar-se da KGB. Mas a KGB o queria de volta, assim como eles queriam a Rússia volta. Qualquer trabalho que Victor aceitasse, onde quer que fosse, a KGB apareceria. “Eles sempre entraram em cena com ofertas e promessas, querendo explorar os meus contatos,” explicou Victor. Você veja que já a essa época a Guerra Fria ainda estava em curso, assim como o trabalho dos espiões de Moscou. Em 1997, o SVR (KGB) queria que Victor infiltrasse espiões na companhia petrolífera alemã em que trabalhava. Quando ele se recusou, o SVR prometeu que iria "pagar com seu sangue." Em 1999, depois de tomar café na Embaixada Russa em Bruxelas, Victor ficou muito doente. Muito naturalmente, ele suspeita de veneno.

Em 2000, um dos colegas de Victor foram convocados pela polícia secreta e o disseram que os Kalashnikovs estavam em uma "lista negra" devido a seus escritos politicamente incorretos. As pessoas estavam sendo advertidas por todos os lados, incluindo o seu dentista. Seus amigos desapareceram. Os colegas desistiram de manter contato. Ele não mais poderia ir ao dentista. "O que me impressionou, especialmente com a geração mais jovem," Victor observou, "é que eles pareçam ser tão conformistas. Não têm idealismo nem valores. Eles só estavam dispostos a colaborar com quem quer que eles vissem como superiores. É por isso que, hoje em dia, em última análise, nós nos encontramos de forma inesperada na posição de outsiders, dissidentes e mesmo inimigos. Foi assim que chegamos a esta situação."

Em 2004, Victor e sua esposa continuaram a escrever sobre assuntos polêmicos e viram-se abordados na rua por oficiais da FSB (KGB) que os advertiu contra a entrada em embaixadas estrangeiras e interrompeu suas tentativas de se reunir com diplomatas. Neste momento, o Kalashnikovs foram demitidos dos seus respectivos empregos em jornais. Desse ponto em diante, Victor e Marina não mais conseguiram encontrar trabalho na imprensa, em universidades ou em empresas russas. Por fim, eles procuraram uma saída para o seu talento na Ucrânia. Mas aqui, novamente, o Kremlin não lhes deu descanso, já que funcionários ucranianos advertiram que o ministro russo do interior tinha incluído os Kalashnikovs em uma lista de "extremistas" e que, como conseqüência, a sua segurança pessoal na Ucrânia já não poderia ser garantida.

"O conformismo é absolutamente esmagador aqui", lamentou Kalashnikov. "Não deve haver distinção entre as autoridades russas e o povo russo. Dos desempregados nas províncias ao topo da hierarquia, o conformismo é enorme. Também dentro da mídia, todos eles estão dispostos a cooperar. Isto é uma realidade e evoluirá desta maneira, apesar de problemas econômicos de hoje. É um fenômeno tipicamente russo. "

Se isso soa como nos tempos soviéticos, você não está enganado. O sistema totalitário se tornou mais sofisticado e mais simplificado. O Ocidente não deve enganar-se. A Guerra Fria nunca terminou. A KGB continua em vigor. Segundo Kalashnikov, "Não é necessário controlar a região da antiga União Soviética inteira. Nós podemos projetar nossa influência. Mesmo quando nós permitimos que os norte-americanos e a OTAN tenham uma presença lá, nós ainda temos o controle. Eu até desconfio que o que aconteceu produziu um modelo de modernização estratégica".

Há muito se foram os empecilhos imperiais. A Rússia pode usar as suas redes de agentes secretos para chantagear executivos, políticos e intelectuais. Jornalistas podem tanto ser comprados quanto ser despedidos por um custo irrisório. As campanhas de desinformação dos anos 60, 70 e 80 lançaram as bases para uma grande decepção. O Ocidente pensa que está lidando com uma nova entidade na Rússia. No entanto, eles ainda estão lidando com a casa que Stalin construiu.

"Meu sentimento é que o antigo sistema de gestão de pessoal dos tempos soviéticos foi restabelecido", disse Kalashnikov, explicando como a polícia secreta pode privar os cidadãos resistentes de um meio de subsistência. "Na União Soviética o seu arquivo pessoal te seguia sempre que havia mudança de um emprego para outro. Seu empregador pode ver qualquer ponto negro marcado pelos empregadores anteriores, e meu ex-patrão [a KGB] estava ansioso para tornar minha vida o mais difícil possível. Eles queriam nos pressionar ao ponto que teríamos de admitir a nossa derrota e fracasso, repensar nosso comportamento."

No Ocidente, fomos informados que o sistema soviético acabou. Fomos informados de que o Partido Comunista perdeu o poder, a KGB foi reformado e que a democracia ganhou o dia.

Kalashnikov disse: "Não houve qualquer momento, posso afirmar com certeza, em que o velho sistema da KGB e a nomenklatura admitiu sua falha ou perdeu o controle. Eles apenas mudaram a sua forma e aparência. Era um tipo de mudança geracional. Em vez de generais no comando, temos tenentes-coronéis. Eles se comportam de maneira diferente, mas estão fazendo a mesma coisa. Nunca houve qualquer momento em que eles admitiram alguma derrota histórica. Nunca houve qualquer passo sério na direção de uma “descomunização” – nunca, nunca. A Comissão Yakovlev foi concebida para imitar os procedimentos descomunização na Europa Central. "

Então foi uma farsa?

"Sim, era uma falsificação, uma imitação", insistiu Kalashnikov. "Desde o início a idéia era, nós vamos voltar, vamos nos modernizar. E foi assim que aconteceu. Naturalmente, muitos observadores ocidentais estavam satisfeitos com as novas caras, com os novos estilos e com a abertura. Mas, passo a passo, você mesmo pode se lembrar que muitas instituições americanas aqui na Rússia tem sido empurradas para fora ou colocadas sob o controle russo. Assim, formalmente, temos vários organismos ocidentais aqui que alegam estar fazendo democracia e trabalhos de consultoria, mas na verdade eles se tornaram um instrumento de política do Kremlin para imitar e explorar para seus próprios fins."
Aqui estão as palavras de um ex-oficial da KGB, dizendo a verdade desde sua casa, em Moscou; impedido de trabalhar por causa de sua honestidade – colocado na lista negra por seus ex-colegas, porque ele não queria participar da maior decepção do nosso tempo. "Não houve nenhuma responsabilidade real pelo passado", explicou Kalashnikov. "Foi um grande engano. As pessoas mudaram de aparência e comportamento, mas o significado real do sistema permaneceu o mesmo - em substância. Isso era bastante visível para mim. O Ocidente está feliz apenas pelo fato de deixarmos de lado os nomes Comunismo, União Soviética, etc. Mudamos nosso vocabulário. Em vez do Politburo e do Comitê Central, temos um presidente e um governo presidencial. Em vez da KGB, temos FSB. Eu insisto que a interpretação sobre a história soviética recente deve ser alterada profundamente. A KGB manteve enormes redes de espiões domésticos. Centenas de milhares de pessoas foram implantadas no momento certo, influenciando o movimento democrático. Esse sistema foi ampliado por Putin. Se você olhar a Rússia desde fora, você não consegue saber quem está manipulando a coisa toda. Centenas de milhares de recursos são empregados na política e nos negócios. Há uma agenda oculta e há estruturas secretas. Nem mesmo os alemães se livraram das suas estruturas ocultas relacionadas à era comunista. Com todos os esforços e tecnologia alemães eles ainda não conseguem resolver o problema das estruturas comunistas secretas. Eles ainda estão sendo manipulados. Agora pegue a Rússia, que é livre para reconstruir suas estruturas [totalitárias] sob uma roupagem diferente."

E quais são as implicações estratégicas?

"Elas devem ser enormes", disse Kalashnikov. "Você sabe, há uma coisa que as pessoas devem entender. Há uma nítida linha de continuidade nas políticas militares de Moscou, desde os tempos de Stalin. Moscou tem seguido a mesma linha de política de maneira consistente. O que é enganador para muitas pessoas é que a presença militar material não está mais lá. Nós não precisamos de tantos tanques. A questão é que tipo de projeto, que tipo de estratégia que você tem no lugar. Tudo isso está inserido dentro dos potenciais de Moscou. Vemos que a presença russa está sendo reinstalada em alguns lugares – América Latina, África e Oriente Médio. "O importante é a manipulação e a influência em vez de um controle direto.

Em matéria de estratégia moderna, o tamanho reduzido da Rússia traz vantagens. Agora, a Rússia não é responsável por alimentar o Azerbaijão, ou fornecer energia barata aos Estados Bálticos ou à Ucrânia. As armas de influência e manipulação da KGB, incluindo o crime organizado e o tráfico de drogas, podem ser usadas para influenciar e manipular sem precisar manter exércitos caros. Dessa forma, os russos aprenderam a racionalizar a sua dominação. Fazer os americanos pensar que Washington mantém o controle. Mas olhe hoje à sua volta e veja o que está acontecendo com a economia americana, com o dólar americano, e com a dissuasão nuclear nos EUA. Há um enfraquecimento visível em todas as três áreas.

Victor Kalashnikov é um homem corajoso. Ele recusou-se a falsificar a realidade por uma questão de oportunidade de carreira ou mesmo de segurança pessoal. Ele está nos dizendo como as coisas são no maior país do mundo. Você pode ignorá-lo se quiser, mas o faça apenas em prejuízo próprio.


Fonte: http://www.financialsense.com/stormwatch/geo/pastanalysis/2009/0724.html

Tradução: Rafael Resende Stival, do blog Salmo 12.